8 de abril de 2010

Atrás da burca

O olhar atrás da burca retrata a desilusão, a falta de esperança. Esperança morta por um sistema imposto, regras criadas e obrigatoriamente aceitas. Os olhos que tem contato com o mundo, mundo desconhecido onde dizem ter liberdade. Liberdade que no seu mundo, não existe. Olhos que já dissiparam lágrimas, é o excesso de tristeza no coração derramando, em gotas, sentimentos.
A boca atrás da burca é sufocada. Clama desesperada em alto e bom som por liberdade, em silêncio. Essa boca não tem opinião, não tem vez. Quando se manifesta é somente para concordar, traindo sua vontade. Vontade de mudar as regras, revolucionar o presente e ser história para o futuro. Mas ela sozinha não tem poder, são só passos a caminhar. Passos cansados, trilhando estradas já traçadas antes mesmo de suas pisadas deixarem marcas na trilha da sua própria vida onde não existe atalhos, à não ser a morte. Passos lentos, sem pressa... que não chegarão à lugares que sonhou.
Os ouvidos atrás da burca ouvem passos, músicas, conversas, notícias... Ouve os passos dos seus filhos brincando no jardim, passos do seu marido que ela não escolheu voltando do trabalho. Passos dos transeuntes, cada um em sua direção, com metas a cumprir, sonhos a realizar. Ouve músicas que retratam o sofrimento, que na sua vida as frases saltam das músicas, os versos do papel e vivem com ela no seu presente, em sua realidade. Ouve conversas vazias, fofocas sem propósitos, comentários banais, notícias do mundo longínquo... distante do seu mundo que se restringe à debaixo da burca: são mistérios de uma história, amores de um coração. Coração que já suportou dores desumanas, se apaixonou ardentemente e no final foi forçada a amar uma pessoa que não a conquistou. Pessoa que não lhe dá valor e que em seu coração ela é só mais uma dividindo espaço com outras mulheres. Elas que chegaram depois que ela se tornou insuficiente, um ser descartável.
As mãos atrás da burca exibem uma aliança no dedo anelar esquerdo. Um selo do contrato onde sua assinatura não foi solicitada. Mãos que exibem marcas de castigo, que já se queimaram ao preparar o jantar pro seu marido e receberam como recompensa agressões. Mãos que já carregaram meninos, acariciaram cabelos, ofereceram cumplicidade. Mãos que não são capazes de escrever seu próprio nome por causa do analfabetismo; mãos que nem da sua história se intitulam autoras.
O rosto atrás da burca se preserva desconhecido, segredos de um passo de lembranças vívidas, presentes no viver de uma mulher que desconhece a liberdade e que sabe muito bem o significado de sofrer.

7 comentários:

Tiago P. disse...

Obrigado por ter passado la no GAZ, e q bom q gostou. Será sempre bem vinda la.

Ana Lu disse...

Passei pela primeira vez, amei o texto. É realmente assim.. infelizmente
=/
bjoss

Republica disse...
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Thaíse L. disse...

Concordo com você, é triste a realidade da burca.
Adorei o blog e a forma como escreve.
Vou voltar sempre.
Obrigada pela visita ao meu blog.
Beijoos :)

Caique Calixto disse...

Achei o texto persusivo, muito sentimental e melodramático.

Caique Calixto disse...
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Thalita Souza disse...

Sim sim sim!!!Agora lembrei quando li este post,do livro A Cidade do Sol,o quanto essas mulheres sofrem!